Ansiedade numa casca de noz

 

INTRODUÇÃO

Hoje é um dia como outro qualquer, não estando de férias nem num ápice frenético de atividades, será provavelmente aquele que idealmente mais se aproximaria do conceito de cotidiano. Lendo um pouco Dale Carnegie e as suas anotações sobre as preocupações do ser humano e refletindo nas minhas experiências e de que forma este conhecimento pode ser adaptado à minha vida, assim como que conclusões posso inferir a partir da mistura de ambos.

Assaltam-me intensamente nestes últimos tempos algumas das maiores e mais comuns preocupações humanas, roubando qualquer chance de parar para apreciar a vida e o seu esplendor, que se encontra sempre aberta para ser apreciada, mas sem nunca ter capacidade mental e emocional para “despender” com esta apreciação, o tempo corre louco e há coisas mais importantes do que parar para apreciar o abanar das folhas das árvores que enfeitam os desajeitados canteiros da rua.

 

O PROBLEMA

Vejamos, questões em si nunca foram um problema para o ser humano, mas sim os impactos e carga emocionais que estas provocam sobre nós, os receios, os medos e as amarguras que essas questões podem trazer.

É nos ensinado desde sempre que a felicidade e realização de um ser humano não vem da vida que tem, mas sim da visão que leva sobre ela. Vemos isto todos os dias quando nos mencionam como pessoas em lugares miseráveis conseguem seguir, num mundo onde aqueles que são vistos como tendo alcançado tudo muitas vezes são infelizes. Isto faz com que ansiedade se torne, arrisco-me a dizer, uma das maiores, senão a maior doença que aflige o ser humano.

Num mundo onde toda a gente caça o sonho de “Existir não é viver, por isso devemos viver da melhor forma que pudermos”, afogando-nos ironicamente no passado e futuro, mesmo alcançando os objetivos, não vivendo nada. A derradeira prisão da mente e morte da pessoa.

 

AS CONSEQUÊNCIAS DO PROBLEMA

Sendo estas preocupações a solidão, aguçada por vezes pelo término de um relacionamento íntimo e impactante, a incerteza do futuro, a nível económico e social de uma breve futura entrada abrupta num mundo desconhecido do qual ainda não é possível prever qualquer resultado, mas onde todos os maus resultados estão muito bem contabilizados e identificados, e terminando com uma componente derivada de de saúde que se vê ameaçada, tanto física como mental.

A receita perfeita para boas umas boas doses de preocupação, ansiedade e desastre.

Esta solidão com o deixado vazio que consome silenciosamente a alma com perguntas como “Talvez estejas a almejar mais do que tens direito”, “O tempo é escasso e as pessoas escorrem-te por entre os dedos, não consegues chegar a todos nem estar perto dos que precisas” e “Nunca vais chegar à pessoa que te está destinada, e mesmo que a encontres mais provável será que a deixes passar sem que te apercebas”.

 

FERRAMENTAS PARA UMA SOLUÇÃO

Assim como tudo o que foi escrito anteriormente, nenhuma das seguintes conclusões é nova, no entanto o seu conceito não deixa de ser revolucionário, o dilema sempre consistiu mais na mentalização e concretização destes princípios.

 

Dias compartimentados

 O hoje começou hoje e termina hoje, e o amanhã começará amanhã e termina amanhã, assim como o ontem começou ontem e terminou ontem. Sobre estes três, o único sobre o qual podemos ter alguma ação será o hoje, portanto este será o único também sobre o qual deveremos gastar os nossos recursos mentais e emocionais.

Cuida deste dia!
Pois ele é a vida, a própria essência da vida
No seu breve curso
Residem todas as verdades e realidades da tua existência:
O êxtase do crescimento
A glória da ação
O esplendor da beleza,
Pois ontem não passa de um sonho
E o amanhã é apenas uma visão,
Mas o dia de hoje bem vivido faz de todos os dias passados um sonho de felicidade
E de todos os vindouros uma visão de esperança.
Cuida, pois, bem deste dia!
Eis a saudação da madrugada.

 

Listar os problemas

Começando por listar bem o que nos aflige e de que forma nos aflige, é possível ter uma visão mais clara do que se passa na nossa vida, olhando o diabo nos olhos e aceitando o que ele tem para nos dar.

O sofrimento causado pela preocupação das diversas más possibilidades é no e mais doloroso e persistente que muitas vezes a realização dessas más possibilidades, pois sufoca-nos e cega-nos do presente, do que nos rodeia e do que pode estar a contribuir para a nossa felicidade.

Estando uma vida inteira a olhar para o que há de vir, sendo esta incerteza do futuro ou consequência do passado, nunca viveremos um único dos dias do presente.

Aceitar e interiorizar o pior cenário possível

Agora que estamos a olhar de frente para a nossa situação, vamos imaginar/visualizar de forma racional os piores cenários para cada um dos nossos dilemas. Não só vislumbrar o conceito e a preocupação que temos dele, mas sim construir a realidade detalhada e realista que dele pode incidir. Sem nos esquecermos que estamos a visualizar a pior realidade possível. Muitas vezes vamos apercebermo-nos que essa situação, por pior que seja, é vivível, tolerável e os seus impactos muito menores no panorama geral da nossa vida do que estamos à espera. Às vezes os seus impactos serão mesmo nulos quando considerada uma escala de tempo maior.

Mas bem, estamos então a viver esta realização do pior cenário possível, que consequências está a trazer para nós? Como nos sentimos?

Não parece muito mais leve e menos impactante do que os terrores que sofremos quando nos estarmos a preocupar com a possibilidade de esta realidade se concretizar?

 Em conversa, foi me feito notar que preocupação é uma palavra com bastante razão de ser, observando com atenção é bastante auto-descritiva, "pre-ocupação", trata-se de uma ocupação fictícia da mente com algo que ainda não aconteceu, muitas vezes mais problemática que a ocupação em si.

Nota:

 O ser humano  tem a habilidade excecional de no fim de contas alcançar aquilo que deseja, mas vive limitado quase sempre pela satisfação “daquilo que basta”. O que nos indica que nos momentos em que não bastar, seremos sempre capazes de alcançar mais.

 

Tomar ação e melhorar como se puder o pior cenário possível

Dando um exemplos começando com a solidão relacional, seguida da incerteza económica e social do futuro.

Mesmo sendo estatisticamente improvável ficarmos completamente sozinhos (mais ainda para qualquer ser humano que tenha os mínimos cuidados pelos outros ao seu redor), olhando à nossa volta e observando a nossa vida no exato momento em que estamos, o que podemos fazer? Não conseguimos falar com ninguém neste momento? Que eventos próximos estarão a acontecer e onde é que eu poderei criar ambiente para conhecer pessoas novas? Como se encontram aquelas que eu já conheci? Que pequeno gesto posso eu tomar para começar a sair desta situação? Que pequeno passo posso dar neste momento?

Esta é a pergunta mágica que devemos colocar sempre que nos vemos numa situação de ansiedade ou preocupação, colocando-a em ação e aceitando tudo o resto que temos ou que nos possa ser trazido após isto.

Conclusão

Esta é apenas uma pequena reflexão sobre o impacto que a nossa visão tem na nossa vida e como podemos fazer um pouco para melhorar a carga que colocamos em nós próprios em todos os momentos. Se pudermos por vezes tirar a névoa de preocupações que nos assaltam e apreciar as pequenas flores selvagens que nascem num canteiro de rua, o correr de um rio ou o pôr do sol mesmo dentro de uma cidade, na simplicidade que têm, acredito que a felicidade de cada individuo será muito maior e os seus objetivos concretizados muito mais facilmente.

 

Disclaimer: Este texto é baseado em coletâneas de experiências e opiniões vividas e não deve ser tomado como referência médica ou tratamento clínico

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