Ingratidão do mundo e a necessidade de ser amado

Porque é que “ser amado” é algo tão necessário e tão difícil de se adquirir? É necessário que entendamos primeiro as limitações da capacidade humana das pessoas de se exprimirem, e as diferenças que existem na forma de cada um de se exprimir. Para aprofundar este tema vamos sair um pouco e abstrairmos do conceito de ser amado e olhar para as interações entre as pessoas. Vamos colocar algumas questões.

Quem nunca se encontrou numa situação sem saber o que dizer?

Quem nunca sentiu algo de forma mais intensa e não soube como agir?

Refiro-me principalmente a sentimentos de gratidão, como por exemplo no momento em que abrimos um presente incrível e ficamos tão felizes de o receber, mas paralisamos de forma frustrante porque não conseguimos transmitir para os outros o quão felizes ficámos de o receber, como se palavras ou qualquer gesto que se pudesse tomar na hora não chegasse para cobrir aquilo que nos ía no coração. Esta é a nossa sina e a nossa limitação, a capacidade de cada um se exprimir é diferente, mas não existe ninguém no mundo que consiga exprimir perfeitamente em toda a sua dimensão aquilo que sente, até porque por vezes acontece mesmo nem nós compreendermos bem aquilo que sentimos, então nem sequer nos é possível exprimi-lo, ou quando o tentamos fazer, não sai da forma como nós gostávamos. A corda que liga sentimentos às palavras é por vezes muito confusa, limitando-nos na nossa comunicação e gerando situações de incompreensão e mal-entendidos. A conclusão a que chegamos a partir daqui, é que por vezes os outros sentem algo que querem transmitir, mas não o conseguem fazer, e nós podemos ficar com um entendimento errado. Um exemplo prático será o de fazer algo por alguém e sentir que essa pessoa não teve qualquer gratidão em troca, quando na verdade a pessoa sentiu essa gratidão, mas não a conseguiu exprimir de forma que nós compreendêssemos, ou mesmo não conseguiu exprimir de todo, embora a sentisse de verdade e gostasse de a exprimir.

 

Em segundo lugar, é necessário entender as diferenças que existem entre as pessoas. Começamos por identificar as 5 linguagens de amor que existem:

- Palavras de Afirmação (demonstrar amor através de palavras de carinho e apreço),

-Qualidade de tempo (demonstrar amor através de tempo bem passado juntos),

-Presentes (demonstrar amor oferecendo algo),

-Gestos de serviço (demonstrar amor fazendo algo pelo outro, este por vezes é mais difícil de compreender por isso anexando alguns exemplos: fazer uma refeição, ajudar num trabalho, essencialmente tudo o que seja uma ação que liberte “peso” das costas da outra pessoa)

-Toque físico (em geral não nos estamos a referir a relações sexuais embora estas possam estar de alguma forma incluídas em algumas relações, mas sim principalmente a abraços, carinhos, afagos na cabeça, entre outros gestos físicos que possam demonstrar ligação emocional)

Após aceitarmos a existência destas 5 linguagens, é necessário entendermos que vivemos num mundo caótico onde cada uma destas linguagens tem uma importância diferente para cada pessoa, para algumas pessoas o mais importante será toque físico, enquanto para outras será gestos de serviço, e estas diferenças geram frustrações enormes.

Uma situação bastante comum acontece quando as pessoas se sentem frustradas constatando que as pessoas e o mundo ao seu redor não retribuem com a mínima gratidão o amor que as próprias colocam nos mesmos. Quando é realizado algum tipo de serviço (no significado comum da palavra), onde esperamos ter algo em troca (mesmo que seja só gratidão) e quando vemos que não o recebemos, sentimo-nos infelizes, mas a verdade é que na grande maioria das vezes, essa gratidão e talvez muito mais estava lá, nós é que não estávamos abertos para receber essa gratidão dos outros, na linguagem deles. Isto porque esperamos que as pessoas nos retribuam da mesma forma que investimos nelas, ou de uma forma que nos apele a nós, e essas pessoas muito provavelmente estarão a retribuir na linguagem que lhes é mais fácil de expressar e/ou é mais importante para elas. Estamos tão concentrados à espera de um gesto específico da outra parte, que acabamos por não reparar em todos os outros gestos que nos passam ao lado, só porque não é a gratidão da mesma língua que a nossa.

Então, o pensamento mais eficiente para abordar este problema será servir esperando nem mesmo gratidão em troca, se não esperarmos nada, por mais mínimo que seja, estaremos muito mais dispostos a receber as diferentes recompensas que os outros nos estão dispostos a dar. Não será então que a maior parte da responsabilidade de receber amor e ser amado não é do mundo, mas de nós próprios que temos de estar abertos de forma que possamos aceitá-lo?

Comentários

  1. Gostei muito. Concordo plenamente com a conclusão, basta estarmos de coração aberto tanto para dar como receber, não criando espetativas, pois só assim e possível saborear o valor da vida não criando frustrações.

    ResponderEliminar
  2. Diria até que o amor que recebemos é proporcional ao amor que temos por nós próprios. Aceitar e amar o nosso EU, e todas as suas limitações, é essencial para captar o amor dos outros. São ou não são mais atraentes as pessoas que cultivam o auto-respeito?

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

Destacar-se e Valor Próprio

Ansiedade numa casca de noz

Firmeza, Falhas, Impotência e Relações